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performance

KEEP THE STREETS EMPTY FOR ME
de Ana Vilela da Costa e Marina Leonardo

Audiowalk / Performance, 2022

Keep the Streets Empty for Me é um percurso sonoro (audiowalk) idealizado para o espaço que circunda o Palácio do Sobralinho. Duas vozes guiam o público pelo espaço enquanto refletem sobre o lugar da performance e o lugar da arte no mundo contemporâneo, com ênfase nas questões ambientais e pós-humanistas. Este projeto pretende colocar o público numa posição de confronto entre o espaço onde se encontra, onde a natureza é preponderante, e a presença de uma atmosfera sonora contrastante.

No seu livro “A Field Guide to Getting Lost”, Rebecca Solnit faz uma breve e concreta descrição do que é uma ruína: “O que é uma ruína afinal? É uma construção humana deixada ao abandono para a natureza, e um dos fascínios da ruína é a sua indomabilidade”. As pessoas constroem a cidade e a natureza destrói a cidade, num processo cíclico que acontece quando as construções, os equipamentos e as infra-estruturas urbanas deixam de ter interesse económico. Neste processo, a que podemos chamar de destruição, mas também de erosão, transformação ou apropriação invasiva de um espaço, é criada a ruína. 

Um dos objectivos deste percurso sonoro é confrontar a ruína com os possíveis ecos do seu passado criando um efeito sinestésico no espectador-ouvinte. Pretende-se fazer uma visita guiada pelos detalhes que habitam os jardins do Palácio, tratando-os como universos interligados, expandindo o seu tempo e extraindo as suas histórias.
Keep the Streets Empty for Me é uma reflexão sobre o presente, o colapso ambiental, neo-liberalismo e pós-humanismo tendo como referência as obras de Rebecca Solnit, Mark Fisher, Timothy Morton, Donna J. Haraway, entre outros.

Ficha Artística / Técnica

Criação Ana Vilela da Costa e Marina Leonardo
Intérpretes Ana Vilela da Costa e Marina Leonardo
Sonoplastia Diogo Rodrigues
Registo fotográfico e de vídeo Martim Ramos
Direcção técnica Fernando Tavares
Assistência técnica Inês Maia
Design gráfico Rita Leite
Apoio à produção Susana Serralha
Produção Inestética companhia teatral
Projecto financiado por República Portuguesa – Cultura,
DGArtes e Câmara Municipal de Vila Franca de Xira
Apoios Arte Franca, Imarte
Media Partner RADAR 97.8 FM

Sessões

Vila Franca de Xira
Palácio do Sobralinho, 5 a 15 Mai 2022 (estreia)

60 min | M/12

© Martim Ramos

UNTITLED
criação Lost Content

Consegues sentir o cheiro dos morangos? Sentes o calor do sol de Fra Angelico? E a solidão da rapariga de Hopper? Sentes? Talvez não fosse com isso que contavas quando foste arrastado para dentro da galeria. Acabaste de ser reformatado. O mundo como o conheceste não é mais o mesmo.
De uma distopia profetizada para uma realidade destruidora: Este é o poder inescapável da Arte.

Ficha Artística / Técnica

Criação Lost Content
Texto Mirró Pereira e Gisela Duque Pereira
Apoio à dramaturgia Bernardo Gavina
Recolha e captação de imagens Gisela Duque Pereira, João Gambino, Miguel Afonso, Mirró Pereira, Pedro Costa
Edição vídeo Miguel Afonso
Sonoplastia e Desenho de som Frisson
Apoio técnico Fernando Tavares
Design gráfico Rita Leite
Apoio à produção Susana Serralha
Produção Inestética companhia teatral / Lost Content (Plateia|Paralela)
Projecto financiado por República Portuguesa – Cultura,
DGArtes e Câmara Municipal de Vila Franca de Xira
Apoios Arte Franca, Imarte
Agradecimentos Museu Nacional de Arte Antiga, David Santos (Historiador de Arte), Macarena Casís

Sessões

Vila Franca de Xira
Palácio do Sobralinho, 20 a 23 Abr 2022 (estreia)

50 min | M/12

© Lost Content

UM BANQUETE
de Maria Braga

No Banquete, serve-se a fantasia dos comensais.
O salazar partiu-se.
Pude pousar a língua torta da carcaça.
Ouvidos moucos do vinagre,
poejo.
O maçarico queima a banha que cobre a dinamite.
Flor dobrada, ouro aos folhos, melosos.
— Maria, vai apanhar espinafres e laranjas ao jardim.
Chupou os dedos e soube-lhe bem o líquido do chocolate duro.

Performance criada a partir da história do Palácio do Sobralinho e dos seus habitantes.

© Inestética

Ficha Artística / Técnica

Performance de Maria Braga
Assistência Rodrigo Dâmaso
Confecção Maria Braga e João Correia
Fotografia Maria Braga
Vídeos Maria Braga
Imagem Vitor Carvalho e Maria Braga
Apoio técnico Fernando Tavares
Design gráfico Rita Leite
Apoio à produção Susana Serralha
Produção Inestética companhia teatral
Estrutura financiada por República Portuguesa – Cultura,
Direção-Geral das Artes e Câmara Municipal de Vila Franca de Xira 
Apoio Flor do Tejo Bar 
Agradecimentos Balaclava Noir, Maria Isaura Braga, Matias Braga

Sessões

Vila Franca de Xira
Palácio do Sobralinho, 16 e 17 Jul 2021

50 min | M/16

Exposição

Vila Franca de Xira
Flor do Tejo Bar, 3 a 12 Set 2021

Um Banquete
de Maria Braga

por Vanessa Badagliacca

Ao receber um convite para um banquete não será pretensioso esperar que a comida seja refinada e em abundância, preparada com ingredientes de qualidade e bem-apresentada, provavelmente num lugar que aparente luxo e riqueza. Desde as tumbas do antigo Egipto, passando pelos banquetes da antiguidade grega e latina e chegando ao aparato e fausto da nobreza europeia em todas as suas formas nos séculos XVII e XVIII – tempos em que o Palácio do Sobralinho foi edificado e viveu o seu auge –, a história da cultura ocidental está repleta de referências associadas ao banquete que retratam como o poder se exibe à mesa, campo de selecção e de eleição, onde existe uma clara separação entre quem se senta e é servido e fala, e quem, sempre de pé, serve e cala. 

Para a preparação de um prato são necessários ingredientes que – com proveniência de vários lugares, desde terras longínquas de outros continentes até ao jardim do próprio Palácio – têm na cozinha um lugar de encontro, e onde, para se tornarem comestíveis, se prestam a ser transformados pela arte da culinária. Deste modo, a comida e os seus ingredientes associam-se também a uma ideia de higiene, de boa apresentação visual e de ordem e, quando mostrados fora da forma e do contexto que lhes é destinado (um processo de cozedura ou conservação, um prato para as conter ou um lugar associado a refeições), estes ingredientes não apenas sujam, como também provocam desordem, suscitando reacções entre o cómico, o irónico e o estranho.

Se num banquete o prazer dos olhos antecede o do palato, aqui Maria Braga convida-nos a Um Banquete onde imagens do tamanho de pratos, em vez de nos deleitar com iguarias, mostram alguns destes alimentos fora do sítio que por norma lhes é atribuído. Uma fonte barroca em forma de concha – símbolo de renascença e purificação – onde o peixe de mármore, em vez de deitar água pela boca, está a pôr a língua de chocolate de fora, provocando um desconforto sensorial, metáfora de uma memória incómoda e repelida sobre o passado colonial que se tece com a história da plantação do cacau.

Uma orelha de porco pregada à porta torna visível uma violência que pertence também ao registo sonoro, aludindo aos sons do Palácio ao longo da sua história. Ruídos, silêncios, bisbilhotices, palavras proferidas em voz alta, segredos guardados ou sussurrados, tons de vozes altos e baixos proporcionais às respectivas classes sociais que aí moravam e da sociedade portuguesa de forma geral. Um toucinho posto na escadaria converte-se num perigoso e gorduroso escorrega para o passante imprudente. Outra imagem mostra ainda uma laranja desfeita por um martelo para bater bifes e que, pelo tamanho, remete para o martelo de um juiz, como que aludindo a uma tentativa de fazer justiça com as ferramentas de quem cozinha, onde as protagonistas são as empregadas que chamam a História a julgamento e determinam uma sentença agridoce e esmagadora. 

A estrutura onde se entretecem os favos, fruto da perícia arquitectónica das abelhas produtoras de mel (ouro líquido que cura), leva apoiada por cima no canto direito uma aparente tela branca dobrada – dobrada de porco, parte do estômago do animal. Se o mel, por ser resultado de um misterioso processo de elaboração, simboliza uma espécie de iniciação e trabalho espiritual pessoal, a dobrada, que recebe a parte mais suja do nosso corpo enquanto estamos vivos, após um processo de tratamento e limpeza post-mortem atinge esta cor branca e imaculada, representando uma pureza desajustada com que Maria Braga mais uma vez nos convida a questionar com cada imagem tudo o que este banquete tem para nos oferecer. 

A época da construção do Palácio coincide também com o apogeu de um género pictórico que estava amplamente difuso pela Europa inteira, a natureza morta – representações de plantas, animais, e por vezes instrumentos musicais que, com riqueza de detalhes e beleza das formas, simbolizavam a caducidade da vida humana e a fugacidade do tempo e decoravam as paredes das habitações privadas das classes sociais mais elevadas. Nesta última imagem da série para Um Banquete, Maria Braga subverte o cânone retratando com a máquina fotográfica – numa perícia mimética que remete para uma pintura flamenga do século XVII – uma língua de vaca crua servida numa travessa prateada. Um equilíbrio compositivo entre o perfeito e o perturbador. Depois a língua é escaldada para que se lhe possa retirar a pele e, assim, aparece com esta cor acinzentada no vídeo Língua. Aqui, a artista, vestindo a farda de chef, bate com a língua na mesa. Uma tarefa da esfera privada da cozinha – suja e ruidosa – é encenada no sumptuoso salão do Palácio. Um duelo entre a teimosia da língua torta e o salazar – irresistível e irreverente alusão à avareza do ditador – que se parte. Finalmente, Maria Braga, com olhar simultaneamente curioso e céptico, enfrenta literalmente a língua morta e torta, observando-a com um misto de atração e repulsa, até mordê-la.   

Esta mesma língua, junto com a orelha, o toucinho, a tripa, o mel e o chocolate juntar-se-ão na cozinha para serem habilidosamente preparados e, por fim, chegar a Um Banquete, performance realizada nos dias 16 e 17 de julho. Será digno deste nome um banquete feito com os restos da comida dos ricos? É este o desafio que nos lança a artista, enquanto se dedica à minuciosa preparação de cada prato, com gestos repetidos e de uma sofisticação e modéstia ironicamente desadequadas desvendando cada alimento guardado ora num tupperware de plástico, ora em película transparente, e guarnecidos com molhos guardados naqueles recipientes que podemos encontrar numa tasca qualquer. 

Nesta acção demolidora e provocadora, o convite a comer torna os espectadores em convidados, não apenas a provar a comida – «podem servir-se, dois de cada vez» – mas a questionar para quem é esta comida que eles próprios estão a saborear, de onde vem e por quem foi feita. A crítica é dúplice: por um lado às desigualdades sociais na história e, por outro – com a sua farda preta à moda dos chefes que primam na alta cozinha e que na maioria são homens –, à atribuição de valor que é dada hoje em dia à comida, num tempo em que alimentos que deixaram de ser «coisa de pobre» entram nos cardápios luxuosos da restauração contemporânea com parca quantidade e elevado cuidado estético como forma de distinção social.

Há mais um elemento neste banquete: o pão branco, que costumava chegar apenas às mesas das pessoas mais ricas e que durante a época de Salazar se estende ilusoriamente às classes menos favorecidas – que só podiam comer pão escuro – com a introdução da carcaça. No vídeo Carcaça, sozinha à mesa na cozinha do palácio, Maria está a comer um pão. No tempo entre a primeira e a última dentada, a sua cara é um teatro de expressões que transmitem angústia, ressentimento, amargura e um desespero que não se rende, mas que pede explicações ao confrontar a câmara com olhar directo no fim. Curioso notar que o nome deste tipo de pão – tão cheio de ar e vazio por dentro – seja sinónimo de esqueleto. Um alimento que leva no nome a vida e a morte mostra como «o pão é ambíguo, como cada coisa que vale e significa. Contém um fermento, e sem este fermento não seria pão, mas o fermento é impureza cadavérica, é morte que vive». [Guido Ceronetti, Il silenzio del corpo, Milano: Adelphi, (1979) 2010, p. 17]

É nesta ambiguidade, neste território intermédio onde significados e leituras se desdobram, que Um Banquete de Maria Braga nos convida a pensar, entre ironia e convivialidade, mostrando a comida como motor de crítica social e política. E, assim, despede-se: «tive que fazer um banquete com a comida dos empregados. Mas é o que havia. Fiz o meu melhor. Obrigada por terem vindo».

Vanessa Badagliacca, Agosto 2021

Exposição
Flor do Tejo Bar, Vila Franca de Xira

fotos © Flor do Tejo Bar

A GREVE DOS CONTROLADORES DE VOO
de Alexandre Lyra Leite
a partir de Jorge de Sousa Braga

Todos aqueles que nos primeiros dias de Março perscrutavam atentamente o céu ficaram desapontados. Este ano, as andorinhas chegarão atrasadas, devido a uma greve dos controladores de voo.

– Jorge de Sousa Braga –

O misterioso desaparecimento da linha do horizonte, enxames de abelhas no Museu do Louvre, cabelos loiros de Marilyn ao vento em árvores japonesas, as demoiselles d’Avigon surpreendidas por uma rusga policial e o segredo do sorriso da Gioconda finalmente revelado… Eis alguns dos efeitos colaterais da surpreendente Greve dos Controladores de Voo, do poeta Jorge de Sousa Braga, ponto de partida para a mais recente performance da Inestética companhia teatral.

A dimensão surrealista e simultaneamente irónica dos poemas constituiu a matéria inspiradora para a criação de um projecto que cruza teatro, poesia, música e video mapping, numa clara metáfora ao frágil equilíbrio dos sistemas interdependentes, na era da globalização.

Ficha Artística / Técnica

Concepção e Direcção Artística Alexandre Lyra Leite
Poemas Jorge de Sousa Braga
Música António de Sousa Dias
Interpretação Ana Vilela da Costa
Prefácio Bodil Eide e Paulo Borges
Conteúdos visuais e video mapping Daniel Rondulha
Figurino Rita Álvares Pereira
Make-up Catarina Esteves
Design gráfico Rita Leite e Rodrigo Leite
Direcção técnica Fernando Tavares
Registo e edição vídeo Vítor Hugo Costa / Metafilmes
Apoio à produção Fernando Tavares, Susana Serralha
Agradecimentos David Fialho, Paula Pinto
Produção executiva Rita Leite
Produção Inestética companhia teatral
Projecto financiado por República Portuguesa – Cultura,
DGArtes e Câmara Municipal de Vila Franca de Xira
Apoios União de Freguesias de Alverca e Sobralinho, Arte Franca, Imarte, Metafilmes, Sentidos Ilimitados

Sessões

Vila Franca de Xira
Palácio do Sobralinho, 12 Nov a 18 Dez 2020 (estreia)

50 min | M/12

© Fernando Tavares

FACEBOOK

Magnifico. Adorei. Muitos parabéns a toda a equipa.
David Santos

Há muito tempo que não assistia a um espectáculo tão poético, tão intenso e inteligente, apesar das máscaras, e da distância, que talento. Parabéns a todos.
Joao Vieira

É um grande espetáculo. Parabéns. Se há espetáculo que nos envolve em profundidade, é este.
João Rodrigues Dos Santos

Um extraordinário espectáculo, poético e inspirador, que recomendo!
Paulo Andrade

(…) vão ao Palácio do Sobralinho ver este espetáculo. Vim de lá com o coração tão leve… a simplicidade continua a maravilhar-me e a Inestética a espantar-me. Obrigada meus amigos, por me fazerem sentir de novo a jovem de caracóis e por me levarem sempre até à minha essência. Obrigada por uma noite de excelência.
Manuela Ralha

Acho que é o espectáculo mais emocional da Inestética. Ou o que eu mais senti.
Zuraida Guedes