A figura mitológica da Medusa é simultaneamente fascinante e perturbadora. Uma mulher com cabelos de serpente e um olhar capaz de petrificar mortais e semideuses. Segundo a mitologia grega, Medusa é punida por Atena após ter sido violada por Poseidon no seu templo. Esta inversão de culpa ecoa debates contemporâneos sobre violência sexual, cultura de culpabilização da vítima e desigualdade de poder. A performance, em percurso livre, inclui seis video-instalações concebidas por Alexandre Lyra Leite e uma instalação escultórica de Filipa Alfama, em diálogo com os músicos Philippe Trovão (saxofone) e Francisco Cipriano (percussão), que actuam ao vivo. O espaço torna-se aqui um território liminar onde mito e presente se entrelaçam.
Vídeo-instalações e Fotografias Alexandre Lyra Leite Saxofone Philippe Trovão Percussão Francisco Cipriano Instalação escultórica Filipa Alfama
* A performance inclui imagens que podem ferir a susceptibilidade de espectadores mais sensíveis
Vamos pensar nas coisas do passado que estão longe de permanecer no passado. Afinal, o que é o passado? E se aquilo que nos antecede não for apenas o caminho que nos trouxe até aqui, mas sim o trajecto que percorremos diariamente — labirinticamente — sem que consigamos avistar uma saída? Temos muitas vezes a sensação clara da evolução das épocas. Sentimo-nos distantes dos tempos em que, temidos, os deuses decidiam o destino dos homens. E das mulheres.
Medusa chega-nos da mitologia grega: uma mulher com cabelos de serpente e um olhar capaz de petrificar mortais e semideuses. Conta a lenda que foi punida por Atena após ter sido violada por Poseidon no seu templo. Esta é a história que se repete nos nossos dias. A vítima de violência sexual continua a ser culpada do que lhe acontece — porque, ao invés de esconder a beleza que a acompanha, escolhe exibi-la; porque o homem não foi preparado para resistir ao “irresistível”; porque… existe, não abdicando de si.
Este embate entre um tempo que julgamos distante e a actualidade que vamos construindo, muitas vezes sem consciência da sua crueldade, está representado de forma bela e tocante no Palácio do Sobralinho. Trata-se de uma performance que percorremos com os olhos, com o corpo e de sentidos despertos, ao longo de cerca de 45 minutos, em percurso livre. O tema desdobra-se em vários espaços do palácio — incluindo o exterior — através de seis vídeo-instalações e uma instalação escultórica. Ao longo do percurso, somos acompanhados por música ao vivo, entre o saxofone e a percussão. É uma viagem onde escolhemos o caminho, literal e figurado. Onde decidimos se nos demoramos nos lugares que nos apaziguam ou nos trilhos que nos inquietam.
Como sempre, falamos pouco do espectáculo — mas importa dizer que esta performance é uma criação da Inestética – Associação Cultural de Novas Ideias. Fundado em 1991 e liderado desde então por Alexandre Lyra Leite, o grupo tem privilegiado obras de autor, recorrendo ao teatro, à ópera e à performance.
Podemos imaginar esta criação em muitos outros lugares. Ainda assim, a sua apresentação no Palácio do Sobralinho, cuja origem remonta ao século XVII, oferece uma experiência singular: a de levitar entre tempos que não vivemos e esta sensação inevitável de estarmos aqui, ocupando um lugar que, sendo nosso, nunca se dissocia das vivências com que nos vamos esculpindo.
Vale mesmo a pena ir ao palácio. E ser terreno num mundo de deuses.
Já falta pouco para terminar. Mas não deixem escapar esta rigorosa exposição/instalação/performance da Inestética. Medusa é mulher agredida, violada, ostracizada. Neste conjunto de obras de Alexandre Lyra Leite, Medusa não é mito. Tem pele, tem carne, tem sangue, mesmo quando disfarça as feridas com mármore e deixa escapar as suas dores apenas pelas pontas dos cabelos. É a expressão crua da violência, do femicídio, é herança que se perpetua interageracionalmente ao longo de séculos. Foi ontem, é hoje e não pode continuar a ser amanhã. Medusa pode ser qualquer uma de nós, em qualquer lugar. Naquele lugar, no Palácio do Sobralinho, ela mostra-se até dia 28 de Março.
Mirró Pereira, Facebook
FICHA ARTÍSTICA / TÉCNICA
Concepção, Vídeo e Direcção Artística Alexandre Lyra Leite Músicos Philippe Trovão (saxofone), Francisco Cipriano (percussão) Instalação escultórica Filipa Alfama Fotografia Alexandre Lyra Leite Design gráfico Rita Leite Direcção técnica Fernando Tavares Assistência técnica Álvaro Figueiredo, Eduardo Amaro Assistência de produção Filipa Alfama, Susana Serralha, Elsa Paulo Registo fotográfico Filipa Alfama, Rodrigo Leite Registo e Edição Vídeo Vítor Hugo Costa / Metafilmes Produção Inestética
Apoios República Portuguesa – Cultura DGArtes – Direção-Geral das Artes Câmara Municipal de Vila Franca de Xira União de Freguesias de Alverca do Ribatejo e Sobralinho Imarte Arte Franca Metafilmes
SESSÕES
Vila Franca de Xira Palácio do Sobralinho, 19 a 28 Mar 2026 [estreia]
M/18 anos 45 minutos
Imagem de capa criada por Rita Leite, a partir da obra “Medusa” de Caravaggio (1597)
ROAD TRIP TO THE END OF THE WORLD de Ana Vilela da Costa, Maria Leite e Martim Ramos
PERFORMANCE, 2025
Palácio do Sobralinho 27 a 30 Março 2025 Qui a Sab 21:30 / Dom 18:00 M/14 anos
Road Trip to the End of the World é uma vídeo-instalação performática que nos convida a refletir sobre os paradoxos do nosso tempo. Inspirada em autores como Byung-Chul Han, Mark Fisher e Ursula K. Le Guin, a obra mergulha em temas como a apatia, o esgotamento e a espetacularização do fim dos tempos. Entre paisagens em ruínas e fragmentos de normalidade, a instalação questiona o nosso lugar num mundo que se desintegra diante dos nossos olhos.
A instalação propõe um espaço visual e sonoro semelhante a uma viagem de carro. O público é posicionado como cúmplice, vendo a catástrofe à distância, enquanto as paisagens evocam uma estética do sublime em ruínas.
Road Trip to the End of the World é, acima de tudo, uma meditação sobre o colapso. É uma evocação do sentimento de impotência que caracteriza a sociedade ocidental contemporânea, ao mesmo tempo que celebra uma paradoxal busca por liberdade. A estrada é um espaço de ambivalência: fuga e confronto, anestesia e despertar. No final, as perguntas que a instalação propõe são: se o mundo acabasse diante dos nossos olhos, o que faríamos? E se o fim do mundo já estiver a acontecer — o que fazemos enquanto ele acontece diante de nós?
Criação Ana Vilela da Costa, Maria Leite, Martim Ramos Interpretação Ana Vilela da Costa e Maria Leite Assistência técnica Fernando Tavares Assistência de produção Filipa Alfama Produção Inestética Apoios República Portuguesa – Cultura, Direção-Geral das Artes, Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, Arte Franca, Imarte, Junta de Freguesia de Alverca do Ribatejo e Sobralinho, Metafilmes
SESSÕES
Vila Franca de Xira Palácio do Sobralinho, 27 a 30 Março 2025 (estreia)
M/14 anos Duração aprox. 40 minutos
Biografias
Ana Vilela da Costa (Lisboa, 1984) atriz e criadora. Licenciada em Antropologia (Univ. Lisboa), MA em Artes Performativas (ESTC-IPL), MA em Artes (DAS Theatre – Univ. Amsterdam), Curso de Cinema e Televisão Gulbenkian/Escola das Artes. Prémio Sophia para melhor atriz secundária 2020. Prémio GDA Novos Talentos cinema 2020. Prémio António Mendes Corrêa 2008 (antropologia). Enquanto criadora, explora fronteiras entre realidade e ficção numa prática interdisciplinar que junta performance e vídeo/som para abordar temas como questões ambientais, pós-humanismo, ficção científica feminista e ficção especulativa. Enquanto atriz trabalha regularmente em Teatro, TV e Cinema com realizadores como Lav Díaz, João Maia, Tiago Guedes, Diana Antunes, Vicente Alves do Ó, Christiane Jatahy, João Nuno Pinto.
Maria Leite (Portimão, 1989) é atriz e produtora de vídeo. A sua prática artística foca- se principalmente em interpretação, tanto para palco como para câmara, mas também colabora na criação, escrita, tradução e concepção visual de projetos de teatro e cinema. Maria licenciou-se em Ciências da Comunicação na NOVA UNL (2010), trabalhou como editora de vídeo no Centro de Investigação de Tecnologias Interativas (2009-2012) e foi membro da companhia do Teatro da Garagem (2013-2015) e do Teatro Nacional São João (2019-2022). Participou em filmes como Guerra Civil (2010), Les Traducteurs (2020), Mutant Blast (2018), Diamantino (2019), Mar Infinito (2022). Em 2023, protagonizou a série da RTP, Lusitânia, no papel de Inês de Melgaço, e participou no espetáculo de realidade virtual Bertie (2024).
Martim Ramos tem um MA em Fotografia, pelo Royal College of Art. Desenvolve trabalho artístico nos campos da fotografia, vídeo e performance, explorando fronteiras entre o documental e a ficção. Expôs trabalho em Portugal (MAAT; Plataforma Revólver; Kgaleria), Ucrânia (MOMA Odessa), Brasil (Centro Dragão do Mar) e Reino Unido (RCA; Filet). Apresentou performances e instalações vídeo no Teatro Taborda, CAL, MUHNAC, AnoZero e Frascati (Amesterdão). Tem obras na colecção do MAAT. Publicou o livro melancholia. Co-realizou o documentário Othon.
SHE’S LOST CONTROL a partir de Joy Division
Alexandre Lyra Leite Joana Manuel & João Cardoso Carolina Inácio
PERFORMANCE, 2023
Noites Curtas, Montemor-o-Novo, 2024 Festival InShadow, Lisboa, 2023 Palácio do Sobralinho, 2023
A performance “She’s Lost Control” tem como elemento central uma vídeo-instalação de Alexandre Lyra Leite, inspirada no icónico tema dos Joy Division. Em diálogo com a vídeo-instalação, a actriz/cantora Joana Manuel e o músico João Cardoso exploram territórios sonoros pós-punk e a bailarina Carolina Inácio introduz outras distorções, com um solo especialmente concebido para a música da banda de Manchester. O poder enigmático da imagem, da palavra e do som, numa “mise-en-scène” sobre a perda de controlo, em múltiplas perspectivas.
Concepção e Direcção Artística Alexandre Lyra Leite A partir do tema “She’s Lost Control” de Joy Division Performers Joana Manuel, João Cardoso, Carolina Inácio Vídeo-instalação Alexandre Lyra Leite Direcção musical Joana Manuel e João Cardoso Criação coreográfica Carolina Inácio e Joana Bergano Performers (vídeo-instalação) Alessandra Armenise, Cleopatra Morillo, Inês Gonçalves, Raquel Cipriano, Rita Silva, Sara Chéu Design gráfico Rita Leite Registo e Edição Vídeo Vítor Hugo Costa / Metafilmes Produção executiva Rita Leite Assistência de produção Susana Serralha Direcção técnica Fernando Tavares Assistência técnica Inês Maia Produção Inestética Projecto financiado por República Portuguesa – Cultura, DGArtes, Câmara Municipal de Vila Franca de Xira Apoios Arte Franca, Imarte, Junta de Freguesia de Alverca do Ribatejo e Sobralinho Agradecimentos João Lopes ESTC
Sessões
Montemor-o-Novo Noites Curtas, Oficinas do Convento, 22 Jun 2024
Lisboa Festival InShadow, Safra, 3 Dez 2023
Vila Franca de Xira Palácio do Sobralinho, 16 a 26 Mar 2023 (estreia)
KEEP THE STREETS EMPTY FOR ME de Ana Vilela da Costa e Marina Leonardo
Audiowalk / Performance, 2022
Keep the Streets Empty for Me é um percurso sonoro (audiowalk) idealizado para o espaço que circunda o Palácio do Sobralinho. Duas vozes guiam o público pelo espaço enquanto refletem sobre o lugar da performance e o lugar da arte no mundo contemporâneo, com ênfase nas questões ambientais e pós-humanistas. Este projeto pretende colocar o público numa posição de confronto entre o espaço onde se encontra, onde a natureza é preponderante, e a presença de uma atmosfera sonora contrastante.
No seu livro “A Field Guide to Getting Lost”, Rebecca Solnit faz uma breve e concreta descrição do que é uma ruína: “O que é uma ruína afinal? É uma construção humana deixada ao abandono para a natureza, e um dos fascínios da ruína é a sua indomabilidade”. As pessoas constroem a cidade e a natureza destrói a cidade, num processo cíclico que acontece quando as construções, os equipamentos e as infra-estruturas urbanas deixam de ter interesse económico. Neste processo, a que podemos chamar de destruição, mas também de erosão, transformação ou apropriação invasiva de um espaço, é criada a ruína.
Um dos objectivos deste percurso sonoro é confrontar a ruína com os possíveis ecos do seu passado criando um efeito sinestésico no espectador-ouvinte. Pretende-se fazer uma visita guiada pelos detalhes que habitam os jardins do Palácio, tratando-os como universos interligados, expandindo o seu tempo e extraindo as suas histórias. Keep the Streets Empty for Me é uma reflexão sobre o presente, o colapso ambiental, neo-liberalismo e pós-humanismo tendo como referência as obras de Rebecca Solnit, Mark Fisher, Timothy Morton, Donna J. Haraway, entre outros.
Ficha Artística / Técnica
Criação Ana Vilela da Costa e Marina Leonardo Intérpretes Ana Vilela da Costa e Marina Leonardo Sonoplastia Diogo Rodrigues Registo fotográfico e de vídeo Martim Ramos Direcção técnica Fernando Tavares Assistência técnica Inês Maia Design gráfico Rita Leite Apoio à produção Susana Serralha Produção Inestética companhia teatral Projecto financiado por República Portuguesa – Cultura, DGArtes e Câmara Municipal de Vila Franca de Xira Apoios Arte Franca, Imarte Media Partner RADAR 97.8 FM
Sessões
Vila Franca de Xira Palácio do Sobralinho, 5 a 15 Mai 2022 (estreia)
Palácio do Sobralinho 18 a 27 Março 2022 Sextas 20:00 / Sábados e Domingos 18:00 Inclui jantar M/12 anos
“O que hoje é elogiado, amanhã será criticado e depois de amanhã, esquecido. Eu e você seremos esquecidos. Todos serão. Tudo é vaidade e transitório.”
Andrei Tarkovsky
Naturezas-Vivas é uma visita encenada e guiada por guias/actrizes no Palácio do Sobralinho, que tem como objectivo recriar momentos da sua história e das pessoas que o habitaram ao longo de quatro séculos.
Com base na recolha de informação histórica e de alguns testemunhos orais de pessoas que lá viveram construiu-se um itinerário em que se cruzam diferentes expressões artísticas: performance, artes visuais e cozinha. Desta forma relaciona-se arte, cozinha e história, através de «quadros» com alimentos ou comida confeccionada porque a memória também se reconstitui através de cheiros e sabores.
Na natureza-morta não é representado o elemento vivo. No momento em que os alimentos expostos são consumidos pelo público os quadros são desconstruídos através do acto de comer, ou seja, tornam-se naturezas-vivas. Isto reforça os conceitos de transitoriedade e de efemeridade inerentes à concepção artística de natureza-morta e evoca o carácter simbólico e celebratório da partilha de uma refeição.
Ementa Sopa de Nabiças Bacalhau com molho branco Rosbife com batatas e legumes salteados Torta de laranja com indução de vinho do Porto
Duração aprox. 45 min + jantar
Ficha Artística
Direcção e Concepção Artística Cristina Rodrigues Pereira Interpretação / Guias Cristina Rodrigues Pereira Susy Santos Vídeos Cristina Rodrigues Pereira Edição de vídeo Carolina Monteverde Ivo Abalroado Figurinos Cristina Rodrigues Pereira Helena Jardim (Atelier Erva-Arruda) Atelier LM’s COZINHA Concepção e Confecção Bernardo Perestrelo de Vasconcelos Diniz José Ricardo Ribeiro Ferreira Apoio à cozinha e decoração de mesas Maria Inês Loureiro dos Santos Apoio Quinta de Pancas
Agradecimentos Maria Isabel Infante Lacerda Sttau-Monteiro e família Joana Leite Faria Isaura Lotra Herculano Ferreira Constantino e Paulo Borges Margarida Casaleiro e Paulo Jorge Antunes da Silva (Câmara Municipal de Vila Franca de Xira) João Vieira Jorge Loureiro dos Santos
Equipa técnica e Produção
Design gráfico Rita Leite Fotografia (composição) Maria Inês Loureiro dos Santos Fotografia Rita Leite Direcção técnica Fernando Tavares Apoio à produção Susana Serralha Produção Inestética Estrutura financiada por República Portuguesa – Cultura / DGArtes Câmara Municipal de Vila Franca de Xira
UNTITLED criação Lost Content
Performance, 2022
Consegues sentir o cheiro dos morangos? Sentes o calor do sol de Fra Angelico? E a solidão da rapariga de Hopper? Sentes? Talvez não fosse com isso que contavas quando foste arrastado para dentro da galeria. Acabaste de ser reformatado. O mundo como o conheceste não é mais o mesmo. De uma distopia profetizada para uma realidade destruidora: Este é o poder inescapável da Arte.
Ficha Artística / Técnica
Criação Lost Content Texto Mirró Pereira e Gisela Duque Pereira Apoio à dramaturgia Bernardo Gavina Recolha e captação de imagens Gisela Duque Pereira, João Gambino, Miguel Afonso, Mirró Pereira, Pedro Costa Edição vídeo Miguel Afonso Sonoplastia e Desenho de som Frisson Apoio técnico Fernando Tavares Design gráfico Rita Leite Apoio à produção Susana Serralha Produção Inestética companhia teatral / Lost Content (Plateia|Paralela) Projecto financiado por República Portuguesa – Cultura, DGArtes e Câmara Municipal de Vila Franca de Xira Apoios Arte Franca, Imarte Agradecimentos Museu Nacional de Arte Antiga, David Santos (Historiador de Arte), Macarena Casís
Sessões
Vila Franca de Xira Palácio do Sobralinho, 20 a 23 Abr 2022 (estreia)
No Banquete, serve-se a fantasia dos comensais. O salazar partiu-se. Pude pousar a língua torta da carcaça. Ouvidos moucos do vinagre, poejo. O maçarico queima a banha que cobre a dinamite. Flor dobrada, ouro aos folhos, melosos. — Maria, vai apanhar espinafres e laranjas ao jardim. Chupou os dedos e soube-lhe bem o líquido do chocolate duro.
Performance criada a partir da história do Palácio do Sobralinho e dos seus habitantes.
Performance de Maria Braga Assistência Rodrigo Dâmaso Confecção Maria Braga e João Correia Fotografia Maria Braga Vídeos Maria Braga Imagem Vitor Carvalho e Maria Braga Apoio técnico Fernando Tavares Design gráfico Rita Leite Apoio à produção Susana Serralha Produção Inestética companhia teatral Estrutura financiada por República Portuguesa – Cultura, Direção-Geral das Artes e Câmara Municipal de Vila Franca de Xira Apoio Flor do Tejo Bar Agradecimentos Balaclava Noir, Maria Isaura Braga, Matias Braga
Sessões
Vila Franca de Xira Palácio do Sobralinho, 16 e 17 Jul 2021
50 min | M/16
Exposição
Vila Franca de Xira Flor do Tejo Bar, 3 a 12 Set 2021
Um Banquete de Maria Braga
por Vanessa Badagliacca
Ao receber um convite para um banquete não será pretensioso esperar que a comida seja refinada e em abundância, preparada com ingredientes de qualidade e bem-apresentada,provavelmente num lugar que aparente luxo e riqueza. Desde as tumbas do antigo Egipto, passando pelos banquetes da antiguidade grega e latina e chegando ao aparato e fausto da nobreza europeia em todas as suas formas nos séculos XVII e XVIII – tempos em que o Palácio do Sobralinho foi edificado e viveu o seu auge –, a história da cultura ocidental está repleta de referências associadas ao banquete que retratam como o poder se exibe à mesa, campo de selecção e de eleição, onde existe uma clara separação entre quem se senta e é servido e fala, e quem, sempre de pé, serve e cala.
Para a preparação de um prato são necessários ingredientes que – com proveniência de vários lugares, desde terras longínquas de outros continentes até ao jardim do próprio Palácio – têm na cozinha um lugar de encontro, e onde, para se tornarem comestíveis, se prestam a ser transformados pela arte da culinária. Deste modo, a comida e os seus ingredientes associam-se também a uma ideia de higiene, de boa apresentação visual e de ordem e, quando mostrados fora da forma e do contexto que lhes é destinado (um processo de cozedura ou conservação, um prato para as conter ou um lugar associado a refeições), estes ingredientes não apenas sujam, como também provocam desordem, suscitando reacções entre o cómico, o irónico e o estranho.
Se num banquete o prazer dos olhos antecede o do palato, aqui Maria Braga convida-nos a Um Banquete onde imagens do tamanho de pratos, em vez de nos deleitar com iguarias, mostram alguns destes alimentos fora do sítio que por norma lhes é atribuído. Uma fonte barroca em forma de concha – símbolo de renascença e purificação – onde o peixe de mármore, em vez de deitar água pela boca, está a pôr a língua de chocolate de fora, provocando um desconforto sensorial, metáfora de uma memória incómoda e repelida sobre o passado colonial que se tece com a história da plantação do cacau.
Uma orelha de porco pregada à porta torna visível uma violência que pertence também ao registo sonoro, aludindo aos sons do Palácio ao longo da sua história. Ruídos, silêncios, bisbilhotices, palavras proferidas em voz alta, segredos guardados ou sussurrados, tons de vozes altos e baixos proporcionais às respectivas classes sociais que aí moravam e da sociedade portuguesa de forma geral. Um toucinho posto na escadaria converte-se num perigoso e gorduroso escorrega para o passante imprudente. Outra imagem mostra ainda uma laranja desfeita por um martelo para bater bifes e que, pelo tamanho, remete para o martelo de um juiz, como que aludindo a uma tentativa de fazer justiça com as ferramentas de quem cozinha, onde as protagonistas são as empregadas que chamam a História a julgamento e determinam uma sentença agridoce e esmagadora.
A estrutura onde se entretecem os favos, fruto da perícia arquitectónica das abelhas produtoras de mel (ouro líquido que cura), leva apoiada por cima no canto direito uma aparente tela branca dobrada – dobrada de porco, parte do estômago do animal. Se o mel, por ser resultado de um misterioso processo de elaboração, simboliza uma espécie de iniciação e trabalho espiritual pessoal, a dobrada, que recebe a parte mais suja do nosso corpo enquanto estamos vivos, após um processo de tratamento e limpeza post-mortem atinge esta cor branca e imaculada, representando uma pureza desajustada com que Maria Braga mais uma vez nos convida a questionar com cada imagem tudo o que este banquete tem para nos oferecer.
A época da construção do Palácio coincide também com o apogeu de um género pictórico que estava amplamente difuso pela Europa inteira, a natureza morta – representações de plantas, animais, e por vezes instrumentos musicais que, com riqueza de detalhes e beleza das formas, simbolizavam a caducidade da vida humana e a fugacidade do tempo e decoravam as paredes das habitações privadas das classes sociais mais elevadas. Nesta última imagem da série para Um Banquete, Maria Braga subverte o cânone retratando com a máquina fotográfica – numa perícia mimética que remete para uma pintura flamenga do século XVII – uma língua de vaca crua servida numa travessa prateada. Um equilíbrio compositivo entre o perfeito e o perturbador. Depois a língua é escaldada para que se lhe possa retirar a pele e, assim, aparece com esta cor acinzentada no vídeo Língua. Aqui, a artista, vestindo a farda de chef, bate com a língua na mesa. Uma tarefa da esfera privada da cozinha – suja e ruidosa – é encenada no sumptuoso salão do Palácio. Um duelo entre a teimosia da língua torta e o salazar – irresistível e irreverente alusão à avareza do ditador – que se parte. Finalmente, Maria Braga, com olhar simultaneamente curioso e céptico, enfrenta literalmente a língua morta e torta, observando-a com um misto de atração e repulsa, até mordê-la.
Esta mesma língua, junto com a orelha, o toucinho, a tripa, o mel e o chocolate juntar-se-ão na cozinha para serem habilidosamente preparados e, por fim, chegar a Um Banquete, performance realizada nos dias 16 e 17 de julho. Será digno deste nome um banquete feito com os restos da comida dos ricos? É este o desafio que nos lança a artista, enquanto se dedica à minuciosa preparação de cada prato, com gestos repetidos e de uma sofisticação e modéstia ironicamente desadequadas desvendando cada alimento guardado ora num tupperware de plástico, ora em película transparente, e guarnecidos com molhos guardados naqueles recipientes que podemos encontrar numa tasca qualquer.
Nesta acção demolidora e provocadora, o convite a comer torna os espectadores em convidados, não apenas a provar a comida – «podem servir-se, dois de cada vez» – mas a questionar para quem é esta comida que eles próprios estão a saborear, de onde vem e por quem foi feita. A crítica é dúplice: por um lado às desigualdades sociais na história e, por outro – com a sua farda preta à moda dos chefes que primam na alta cozinha e que na maioria são homens –, à atribuição de valor que é dada hoje em dia à comida, num tempo em que alimentos que deixaram de ser «coisa de pobre» entram nos cardápios luxuosos da restauração contemporânea com parca quantidade e elevado cuidado estético como forma de distinção social.
Há mais um elemento neste banquete: o pão branco, que costumava chegar apenas às mesas das pessoas mais ricas e que durante a época de Salazar se estende ilusoriamente às classes menos favorecidas – que só podiam comer pão escuro – com a introdução da carcaça. No vídeo Carcaça, sozinha à mesa na cozinha do palácio, Maria está a comer um pão. No tempo entre a primeira e a última dentada, a sua cara é um teatro de expressões que transmitem angústia, ressentimento, amargura e um desespero que não se rende, mas que pede explicações ao confrontar a câmara com olhar directo no fim. Curioso notar que o nome deste tipo de pão – tão cheio de ar e vazio por dentro – seja sinónimo de esqueleto. Um alimento que leva no nome a vida e a morte mostra como «o pão é ambíguo, como cada coisa que vale e significa. Contém um fermento, e sem este fermento não seria pão, mas o fermento é impureza cadavérica, é morte que vive». [Guido Ceronetti, Il silenzio del corpo, Milano: Adelphi, (1979) 2010, p. 17]
É nesta ambiguidade, neste território intermédio onde significados e leituras se desdobram, que Um Banquete de Maria Braga nos convida a pensar, entre ironia e convivialidade, mostrando a comida como motor de crítica social e política. E, assim, despede-se: «tive que fazer um banquete com a comida dos empregados. Mas é o que havia. Fiz o meu melhor. Obrigada por terem vindo».
A GREVE DOS CONTROLADORES DE VOO de Alexandre Lyra Leite a partir de Jorge de Sousa Braga
Performance, 2020
Todos aqueles que nos primeiros dias de Março perscrutavam atentamente o céu ficaram desapontados. Este ano, as andorinhas chegarão atrasadas, devido a uma greve dos controladores de voo.
– Jorge de Sousa Braga –
O misterioso desaparecimento da linha do horizonte, enxames de abelhas no Museu do Louvre, cabelos loiros de Marilyn ao vento em árvores japonesas, as demoiselles d’Avigon surpreendidas por uma rusga policial e o segredo do sorriso da Gioconda finalmente revelado… Eis alguns dos efeitos colaterais da surpreendente Greve dos Controladores de Voo, do poeta Jorge de Sousa Braga, ponto de partida para a mais recente performance da Inestética companhia teatral.
A dimensão surrealista e simultaneamente irónica dos poemas constituiu a matéria inspiradora para a criação de um projecto que cruza teatro, poesia, música e video mapping, numa clara metáfora ao frágil equilíbrio dos sistemas interdependentes, na era da globalização.
Ficha Artística / Técnica
Concepção e Direcção Artística Alexandre Lyra Leite Poemas Jorge de Sousa Braga Música António de Sousa Dias Interpretação Ana Vilela da Costa Prefácio Bodil Eide e Paulo Borges Conteúdos visuais e video mapping Daniel Rondulha Figurino Rita Álvares Pereira Make-up Catarina Esteves Design gráfico Rita Leite e Rodrigo Leite Direcção técnica Fernando Tavares Registo e edição vídeo Vítor Hugo Costa / Metafilmes Apoio à produção Fernando Tavares, Susana Serralha Agradecimentos David Fialho, Paula Pinto Produção executiva Rita Leite Produção Inestética companhia teatral Projecto financiado por República Portuguesa – Cultura, DGArtes e Câmara Municipal de Vila Franca de Xira Apoios União de Freguesias de Alverca e Sobralinho, Arte Franca, Imarte, Metafilmes, Sentidos Ilimitados
Sessões
Vila Franca de Xira Palácio do Sobralinho, 12 Nov a 18 Dez 2020 (estreia)
Magnifico. Adorei. Muitos parabéns a toda a equipa. David Santos
Há muito tempo que não assistia a um espectáculo tão poético, tão intenso e inteligente, apesar das máscaras, e da distância, que talento. Parabéns a todos. Joao Vieira
É um grande espetáculo. Parabéns. Se há espetáculo que nos envolve em profundidade, é este. João Rodrigues Dos Santos
Um extraordinário espectáculo, poético e inspirador, que recomendo! Paulo Andrade
(…) vão ao Palácio do Sobralinho ver este espetáculo. Vim de lá com o coração tão leve… a simplicidade continua a maravilhar-me e a Inestética a espantar-me. Obrigada meus amigos, por me fazerem sentir de novo a jovem de caracóis e por me levarem sempre até à minha essência. Obrigada por uma noite de excelência. Manuela Ralha
Acho que é o espectáculo mais emocional da Inestética. Ou o que eu mais senti. Zuraida Guedes