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ópera

MANIFESTO NADA
de António de Sousa Dias e Alexandre Lyra Leite
a partir de Manifestos DADA de Tristan Tzara

Ópera-manifesto contra e a favor de tudo e decididamente sobre nada. 

MANIFESTO NADA inspira-se no irreverente movimento DADA, que no início do séc. XX provocou rupturas na percepção da arte e inspirou inúmeros artistas e colectivos de vanguarda. Tristan Tzara, considerado o precursor do movimento Dadaísta, afirma claramente com a publicação do livro “Sete Manifestos Dada” (1924) a ruptura entre poesia tradicional e poesia dadaísta, numa atitude provocatória de desconstrução e negação de todas as convenções culturais, sociais, morais, estéticas e linguísticas.

A música de António de Sousa Dias propõe uma viagem possível neste universo, cortejando a desconstrução, flirtando com a colagem, namoriscando a irreverência, num piscar de olhos a diferentes expressões musicais contemporâneas ou próximas do movimento DADA e onde a lógica não é a regra.

Música António de Sousa Dias
Libreto e Encenação Alexandre Lyra Leite
Baritono Rui Baeta
Sopranos Joana Manuel e Célia Teixeira
Ensemble Fábio Oliveira (trompete), Philippe Trovão (sax tenor), Guilherme Reis (contrabaixo), António de Sousa Dias (electrónica)

Ficha Artística / Técnica

Música António de Sousa Dias
Manifestos DADA Tristan Tzara
Libreto e Encenação Alexandre Lyra Leite
Tradução Rita Leite
Barítono Rui Baeta
Soprano Joana Manuel
Soprano Célia Teixeira
Trompete Fábio Oliveira
Saxofone (tenor) Philippe Trovão
Contrabaixo Guilherme Reis
Concepção visual Alexandre Lyra Leite e Rita Leite
Produção executiva Rita Leite
Direcção técnica Fernando Tavares
Assistência técnica Inês Maia
Design gráfico Rita Leite
Registo e edição vídeo Vítor Hugo Costa
Apoio à produção Susana Serralha
Produção Inestética companhia teatral
Projecto financiado por República Portuguesa – Cultura,
DGArtes, Câmara Municipal de Vila Franca de Xira
Apoios Arte Franca, Imarte, Metafilmes
Agradecimento Diogo Delgado

Récitas

Lisboa
Festival CRIASONS IV, Teatro Aberto, 30 Nov 2022
Vila Franca de Xira
Palácio do Sobralinho, 17 Fev a 5 Mar 2022 (estreia)

50 min | M/12

fotos © Vítor Hugo Costa

MEDIA

MANIFESTO NADA
por Rui Freitas
Artes&contextos, Março 2022

Se o dadaísmo ainda pode existir (e quanto faria falta algum dadaísmo aos nossos dias e costumes) António Sousa dias e Alexandre Lyra Leite incarnaram-no, e de forma primorosa passaram-no aos performers, que por sua vez o beberam e o vivem de uma forma notável nesta obra. 

O termo Manifesto, deriva do latim Manifestus, e é uma declaração de princípios e de intenções, geralmente de um grupo e até ao final do séc. XIX era exclusivamente político.
O Manifeste Dada (1918) de Tristan Tzara, tanto pode ser encarado como uma declaração estética, política, social, mas no fundo é tudo isto ou outra coisa qualquer e afirma-se desde logo contra os manifestos. 

“I write a manifesto and I want nothing, yet I say certain things, and in principle I am against manifestos, as I am also against principles.” Manifeste Dada, Tristan Tzara,1918

Os dadaístas pretenderam, provocar uma cambalhota espalhafatosa na sociedade e nos seus valores, sobretudo, mas não só, estéticos. 
Orientavam-se de acordo com um niilismo político e social e uma anarquia da arte, para combater a ordem estabelecida e os gostos burgueses; um dos principais objetivos de todas as suas criações e manifestações era chocar. Exaltavam o descrédito na humanidade, no sentido da vida, na individualidade (radical), na subserviência a sistemas de crenças e valores contraditórios. O dadaísmo, mais do que um movimento era uma atitude. A ideia de uma obra era mais importante do que o “objeto” final, a própria obra. 

A Arte Dada pretendia mais do que chocar, ofender, para não alimentar as ilusões de um propósito na vida. Pretendiam com a sua apologia do absurdo e do irracional, escrnecer e ridicularizar os sistemas e crenças que tentavam – diziam – justificar o propósito da vida, desde a religião ao amor, da cultura ao consumismo, do nacionalismo à família etc. 
Tzara dizia que se contradiria se não se contradissesse e o afirmasse também. 

Num cenário luminoso e limpo, sob um fresco floral no teto de uma sala do Palácio do Sobralinho, encontramos Rui Baeta e Joana Manuel, ao centro, estáticos como manequins e na penumbra os três músicos instrumentistas. Mais afastado do centro de cena, um mono coberto com um pano branco. 
Os dois líricos à boca de cena, acordam para começarem a desfiar o texto do Desgosto Dadaísta, com os instrumentos em cumplicidade a sublinhar a repetição da palavra Dada. Ou a dizê-la, na sua língua. 
Às duas vozes iniciais, junta-se a Célia Teixeira, que destapado o mono, era quem se encontrava por baixo da cobertura, e ora a declamarem, em tom coloquial ou exaltado, ora a cantarem desgarradamente ou em coro, e com o Rui Baeta a executar movimentos de dança desconcertados e patéticos, o Dada entrou. 

De entre as diversas leituras que se pode fazer dos textos dos manifestos Dada, nenhuma nos pode levar a encará-los como normais aos olhos do abençoado senso comum. Nesta dramatização, o encenador Alexandre Lyra Leite, escolheu o lado mais cómico e interpretou-o sem a mordacidade patente e velada no texto original, potencialmente sarcástico e até violento, conquanto irónico. 
O contexto instrumental de António de Sousa Dias, é tão irónico quanto brilhante e os três instrumentos, o trompete de Fábio Oliveira, o Tenor Sax de Philippe Trovão e o contrabaixo de Guilherme Reis são vozes que repetem com sarcasmo o que apregoam as vozes líricas e suportam as danças patéticas e os dislates do Rui, da Célia e da Joana. Fazem-lhe coro, dão-lhes ligação tanto quanto as dispersam e se dispersam, e também dizem de sua voz parecendo por vezes querer sair da performance para iniciar um percurso autónomo. 
Tal como os cantores/declamadores, fazem-no, tanto de uma forma monótona e monotónica, por vezes compassada e com laivos melódicos, outras gritando em desenhos sinuosos e imprevisíveis. 

O ambiente musical de Sousa Dias, sem perder nunca a identidade única e de conjunto passeia livremente, e tanto nos pode levar aos experimentalismos de John Cage ou Sun Ra, e aos desalinhos de Tom Waits quanto a Scott Joplin ou a um cabaret, talvez Cabaret Voltaire
Há momentos em que os três atores/cantores estão cada um no seu momento, independentes de tudo o que corre à sua volta e o caos vai impregnando a cena. De uma forma brilhante, o espetáculo decorre sinuosamente num todo falsamente desordenado, mas com o rigor ostensivamente caótico e pontualmente, ora cacofónico, ora melódico, onde a vocalização assume uma tonalidade quase sempre um patética. Um sorriso cínico, apalermado e plástico decora a face da Célia, cuja personagem assume por vezes o papel de um eco desconcertado e desconcertante das outras duas. 
Numa saída e reentrada a cena é enriquecida com uma gaiola de pássaro com uma pistola pendurada no interior e cuja base amovível se revela portadora de uma cábula para o Rui, e com pés de microfone com mãos modeláveis no lugar do micro, que a Joana usa para apontar o publico com ar sinistro. 

O dadaísmo cresce até ao fim e a linguagem ou as linguagens vão sofrendo transfigurações, sem, contudo, alguma vez se desagregarem ou perderem o todo, reencontrando-se, quase sempre arrastados pela cumplicidade instrumental. O manifesto vai sendo desfolhado em canto ou declamação, onde Baeta vai do patético ao solene e volta, ilustrado por danças grotescas e vocalizações espampanantes; e com conivência do instrumental ora redondo ora afiado. 
Após uma saída de cena, que poderia ser só mais uma de várias, segue-se um nada que confirma o fim da peça. Ou confirmaria, não fosse Dada o seu espírito, porque a seguir regressa a Joana descalça, com os sapatos na mão, para se dirigir a um espectador com uma lenga-lenga sem sentido sobre preços e câmbios disparatados. Saiu… 

Se o dadaísmo ainda pode existir (e quanto faria falta algum dadaísmo aos nossos dias e costumes) António Sousa dias e Alexandre Lyra Leite incarnaram-no, e de forma primorosa passaram-no aos performers, que por sua vez o beberam e o vivem de uma forma notável nesta obra. 
Ah… quando Rui Breda nos diz à boca de cena, com olhos arregalados e sorriso apalermado, “vós sois todos adoráveis”, não sei mesmo se neste contexto será prudente considerá-lo um elogio… 

Rui Freitas
Jornalista. Licenciado em Estudos Artísticos.

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“Um barítono, duas sopranos e três músicos de excelência dão alma, voz e corpo à desconstrução e à irreverência, à negação de todas as convenções, seguindo a lógica do absurdo. Em tempos insanos de indefinição e asfixia, a explosão DADA pacifica e alivia.
Em cena no Palácio do Sobralinho. A não perder.”
Clara de Barros, professora

“J’ai Adoré !!!! C’est absolument génial !!!
Bisous et félicitations à vous deux et à toute l’équipe !!!!”
Tatiana Spitzer, artista plástica

“Encantador e delicioso. Confirmo. Muitos parabéns a todos.”
David Santos, historiador de arte

“Adorei. Dada! Grande loucura! Da música aos músicos; dos cantores/actores, aos figurinos e encenação. Muito bom, divertido. O todo e o seu contrário. Grande espectáculo. Parabéns!”
João Vieira, guionista