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MEDUSA

MEDUSA
de Alexandre Lyra Leite

PERFORMANCE, 2026

Palácio do Sobralinho
19 a 28 Março 2026

A figura mitológica da Medusa é simultaneamente fascinante e perturbadora. Uma mulher com cabelos de serpente e um olhar capaz de petrificar mortais e semideuses. Segundo a mitologia grega, Medusa é punida por Atena após ter sido violada por Poseidon no seu templo. Esta inversão de culpa ecoa debates contemporâneos sobre violência sexual, cultura de culpabilização da vítima e desigualdade de poder.
A performance, em percurso livre, inclui seis video-instalações concebidas por Alexandre Lyra Leite e uma instalação escultórica de Filipa Alfama, em diálogo com os músicos Philippe Trovão (saxofone) e Francisco Cipriano (percussão), que actuam ao vivo.
O espaço torna-se aqui um território liminar onde mito e presente se entrelaçam.

Vídeo-instalações e Fotografias Alexandre Lyra Leite
Saxofone Philippe Trovão
Percussão Francisco Cipriano
Instalação escultórica Filipa Alfama

* A performance inclui imagens que podem ferir a susceptibilidade de espectadores mais sensíveis

fotos © Filipa Alfama / Rodrigo Leite

MEDIA

O encontro dos tempos

por Zuraida Guedes
Página Um, 24/03/26

Vamos pensar nas coisas do passado que estão longe de permanecer no passado. Afinal, o que é o passado? E se aquilo que nos antecede não for apenas o caminho que nos trouxe até aqui, mas sim o trajecto que percorremos diariamente — labirinticamente — sem que consigamos avistar uma saída?
Temos muitas vezes a sensação clara da evolução das épocas. Sentimo-nos distantes dos tempos em que, temidos, os deuses decidiam o destino dos homens. E das mulheres.

Medusa chega-nos da mitologia grega: uma mulher com cabelos de serpente e um olhar capaz de petrificar mortais e semideuses. Conta a lenda que foi punida por Atena após ter sido violada por Poseidon no seu templo.
Esta é a história que se repete nos nossos dias. A vítima de violência sexual continua a ser culpada do que lhe acontece — porque, ao invés de esconder a beleza que a acompanha, escolhe exibi-la; porque o homem não foi preparado para resistir ao “irresistível”; porque… existe, não abdicando de si.

Este embate entre um tempo que julgamos distante e a actualidade que vamos construindo, muitas vezes sem consciência da sua crueldade, está representado de forma bela e tocante no Palácio do Sobralinho.
Trata-se de uma performance que percorremos com os olhos, com o corpo e de sentidos despertos, ao longo de cerca de 45 minutos, em percurso livre. O tema desdobra-se em vários espaços do palácio — incluindo o exterior — através de seis vídeo-instalações e uma instalação escultórica. Ao longo do percurso, somos acompanhados por música ao vivo, entre o saxofone e a percussão.
É uma viagem onde escolhemos o caminho, literal e figurado. Onde decidimos se nos demoramos nos lugares que nos apaziguam ou nos trilhos que nos inquietam.

Como sempre, falamos pouco do espectáculo — mas importa dizer que esta performance é uma criação da Inestética – Associação Cultural de Novas Ideias. Fundado em 1991 e liderado desde então por Alexandre Lyra Leite, o grupo tem privilegiado obras de autor, recorrendo ao teatro, à ópera e à performance.

Podemos imaginar esta criação em muitos outros lugares. Ainda assim, a sua apresentação no Palácio do Sobralinho, cuja origem remonta ao século XVII, oferece uma experiência singular: a de levitar entre tempos que não vivemos e esta sensação inevitável de estarmos aqui, ocupando um lugar que, sendo nosso, nunca se dissocia das vivências com que nos vamos esculpindo.

Vale mesmo a pena ir ao palácio.
E ser terreno num mundo de deuses.

Avaliação
⭐⭐⭐⭐⭐

https://paginaum.pt/2026/03/24/o-encontro-dos-tempos

Já falta pouco para terminar. Mas não deixem escapar esta rigorosa exposição/instalação/performance da Inestética. Medusa é mulher agredida, violada, ostracizada. Neste conjunto de obras de Alexandre Lyra Leite, Medusa não é mito. Tem pele, tem carne, tem sangue, mesmo quando disfarça as feridas com mármore e deixa escapar as suas dores apenas pelas pontas dos cabelos. É a expressão crua da violência, do femicídio, é herança que se perpetua interageracionalmente ao longo de séculos. Foi ontem, é hoje e não pode continuar a ser amanhã.
Medusa pode ser qualquer uma de nós, em qualquer lugar. Naquele lugar, no Palácio do Sobralinho, ela mostra-se até dia 28 de Março.

Mirró Pereira, Facebook

FICHA ARTÍSTICA / TÉCNICA

Concepção, Vídeo e Direcção Artística Alexandre Lyra Leite
Músicos Philippe Trovão (saxofone), Francisco Cipriano (percussão)
Instalação escultórica Filipa Alfama
Fotografia Alexandre Lyra Leite
Design gráfico Rita Leite
Direcção técnica Fernando Tavares
Assistência técnica Álvaro Figueiredo, Eduardo Amaro
Assistência de produção Filipa Alfama, Susana Serralha, Elsa Paulo
Registo fotográfico Filipa Alfama, Rodrigo Leite
Registo e Edição Vídeo Vítor Hugo Costa / Metafilmes
Produção Inestética

Apoios
República Portuguesa – Cultura
DGArtes – Direção-Geral das Artes
Câmara Municipal de Vila Franca de Xira
União de Freguesias de Alverca do Ribatejo e Sobralinho
Imarte
Arte Franca
Metafilmes

SESSÕES

Vila Franca de Xira
Palácio do Sobralinho, 19 a 28 Mar 2026 [estreia]

M/18 anos
45 minutos

Imagem de capa criada por Rita Leite, a partir da obra “Medusa” de Caravaggio (1597)